(Lisboa, 1888 - 1935)
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
AUTOPSICOGRAFÍA
Finge tan completamente
Que hasta finge que es dolor
El dolor que de veras siente.
Sienten, en el dolor leído,
No los dos que el poeta vive,
Sino aquél que no han tenido.
Distrayendo a la razón,
Ese tren sin real destino
Que se llama corazón.
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